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Traída na gestação-Você perdoaria?

Ser traída na gestação é colocar em risco a base familiar

O nascimento de um filho traz inúmeras inseguranças para a mulher. Um novo corpo, uma nova vida que você não faz ideia de como será, lidar com o cansaço e a expectativa de voltar ao trabalho ou estudos para algumas, entre tantas outras coisas. Nesse curto período de tempo, nos cobramos pra que o instinto materno que existe em nós apareça o mais rápido possível para que a gente dê conta disso. Dentro de nós cresce uma outra pessoa que vai desafiar todas os nossos limites, bons e ruins. Essa somos nós, as mães.

Quanto aos pais? O que passa na cabeça deles nesse momento? Vocês homens estão atentos às necessidades dessa mulher que emprestou seu corpo pra dar luz a um dos seus maiores bens?
Eu daria tudo pra ter essas respostas no Globo Repórter, na sexta a noite.

Dizem que não é fácil entender as mulheres, mas na verdade, existem ainda mais faltas nos homens que não compreendo. Uma delas é: como justificar uma traição no período de gestação ou pós-parto?

Trair uma mulher grávida não é só trair a sua confiança, mas é pôr em risco a base familiar de uma criança que está por vir. Agora a relação não é mais a dois, é a três!

Será que os homens colocam esse fato na balança? Não é novidade a enorme quantidade de crianças “sem pai”, no Brasil. Que futuro tem uma criança que já vem ao mundo com pais que não se responsabilizam pelos seus atos e as consequências geradas na vida dessa criança? Estamos pensando em crianças como nossa responsabilidade?

Parece que estamos andando em círculos nessa conversa com tantos questionamentos, mas é dando resposta que a gente encontra os erros do caminho. Acredito que todo homem deveria se colocar no lugar de responder essas perguntas e repensar seu lugar como homem dentro da família que ele decidiu integrar.

Um homem cuida do seu lar, cuida de quem o cuida, cuida de quem ainda nem sabe fazer isso por si mesmo. Será que é tão difícil praticar esse papel?

Para as mulheres foi dada a primeira e quase única missão de cuidar, característica que foi suprimida das obrigações dos homens, substituída pela função de prover, e é nesse jogo de palavras que a responsabilidade se perde. A criança chora, a mãe levanta pra amamentar (ainda que tenha que trabalhar). O pai dorme, pois tem que trabalhar.

A mãe dedica seu tempo e carinho aos filhos, ao homem e à casa, pois não pode parecer “desleixada”.

O homem fica com outra na rua, pois a mulher não tem mais todo tempo de dedicação pra ele.

Entende como estamos alimentando relações egoístas e patriarcais com homens infantis e machistas? Será que os homens precisam ser mimados a todo tempo pra que queiram exercer seu papel? Pai é pai em qualquer circunstância e, se não é capaz de ser, é ele quem precisa se rever.

Um homem que trai sua mulher em uma situação de total vulnerabilidade física e emocional, que é a gestação e o pós-parto, não trai só a ela. Trai a toda humanidade.

Ele não sente o peso, o inchaço, o medo de não se sentir pertencer ao seu corpo em mudanças. Não sente a falta de ar causada pelo peso da barriga enquanto tenta dormir a noite, nem toda invasão médica ao nosso corpo que agora é casa, os cortes, as marcas, as dores. A função mínima dele é apenas assistir ao belo trabalho que a natureza faz, amar e vivenciar o processo. E o que a sociedade ensinou a esses homens para que as coisas andem em caminhos tão difíceis pra nós?

Se você consegue perdoar eu não sei, mas o psicológico e tempo jogado fora não volta atrás. Algumas coisas que se quebram podem nunca mais se colar e quem escolhe trair tem que estar ciente disto.

Sim, sempre haverá a lembrança de quando você precisou segurar na mão desse alguém e você encontrou a sua mão vazia, mas superar é preciso pois a vida segue no presente e eu te desejo forças pra isso.

Você que se identifica nesse texto, espero que encontre apoio até que possa falar sobre isso e não sinta mais sentimentos ruins. Que você esteja bem, e se não estiver, que esse texto sirva pra secar suas lágrimas e mostre onde está o problema (que não é em você!). Talvez você precise superar uma separação, além da traição, mas sempre lembre que tudo é passageiro. Nenhum sentimento ruim dura pra sempre. Nenhum passado vai ser grande suficiente a ponto de nos impedir de ser feliz no presente.

Recomendo a leitura dos posts do dia 27 de junho de 2020 da, atriz, mãe, artista, educadora e terapeuta, Carolinie Figueiredo.

Textos mais que necessário, uma denúncia da ausência de parceria paterna, que dá voz à dor de muitas mulheres.

A retomada de consciência se faz com todas nós juntas! Juntas.

– por Sany Santana

Sany é arquiteta e trabalha no Tribunal Regional Federal. Mãe de primeira viagem, ao longo dos anos vem acumulando experiência em maternidade e vivência consciente como uma mulher preta. Conheça mais sobre a autora desse texto: Instagram @sany_santanna

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