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OBJETIFICAÇÃO DA MULHER PRETA

Estigmas e estereótipos

Em pleno 2020 os homens estão descobrindo que não somos propriedade ou um corpo fácil assim como foi estereotipado por muitos e muitos anos. Ao longo da história a mulher tem sido taxada com imagens construídas a partir de preconceitos e violências do passado, tais como ser vista como “quente na cama”, aquela que não é pra casar, ou a cuidadora, o papel que muitas exercem sendo mães e pais. Toda essa estigmatização trás pra nós dores de feridas abertas pela cultura de desvalorização da mulher, e sobretudo, da mulher preta.

Ver mulheres como objeto de uso masculino é uma prática machista e doente que se enraizou na nossa cultura. O estupro era uma prática comum dos “donos” das escravas, assim como usá-las para criar seus filhos não biológicos. No cotidiano, percebemos esses mesmos absurdos se repetindo claramente se fizermos um paralelo do passado com os dias de hoje.

A independência do nosso corpo feminino nos tornou mais confiantes e livres, em contra partida, vemos veículos de informação se aproveitando dessa conquista para tornar esse corpo também um objeto de venda. Existem outdoors nas ruas com nossos corpos expostos e erotizados a favor do mercado, corpos a favor da publicidade, mas em nada se pensa nessa mulher como pessoa, o que ajuda a perpetuar estigmas criados para nós.

Além da objetificação, é gerada uma disputa e comparação focada apenas no corpo como conteúdo principal, o que no caso da mulher preta é pior. Somos lembradas apenas no carnaval, reforçando ideias distorcidas e alimentando o turismo sexual. São em datas como essas, inclusive, que somos vistas com valor estético positivo.

O que há de errado? Por que insistem em nos ignorar como mulheres poderosas e nos colocar como corpos naturalmente invadidos?

Talvez um bom caminho seja começarmos por nós, a mudança para esse cenário. O corpo é instrumentos de fala, de liberdade contra padrões, autoafirmação. Vamos aplaudir nossos corpos que não são mostrados pela publicidade para que sejamos vistas de forma ressignificada. Aplaudir os nossos dons que nos tornam especiais. Se desprender dos estereótipos e da exposição exacerbada que nos fez ter medo de nos mostramos de outras formas, afinal é menos desgastante do que ir contra o senso comum.

A ideia de um feminino passivo, frágil e incapaz foi a estratégia criada que acreditássemos nisso e nos pôr em uma caixa invisível que nos limita.

“Isso não é brincadeira de menina”, “o homem é que manda”, “se você agir assim nenhum homem vai te querer”, “mulher direita não faz isso”.
A nossa vivência foi projetada para satisfação masculina, servindo ou alimentando egos.

Somos mais que corpos com regras ditadas. Somos nós que devemos trilhar esse caminho de liberdade para nós e para as outras.

Como disse Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras [..]”

Vamos nos colocar no nosso lugar, e esse lugar é o topo.

– por Sany Santana

Sany é arquiteta e trabalha no Tribunal Regional Federal. Mãe de primeira viagem, ao longo dos anos vem acumulando experiência em maternidade e vivência consciente como uma mulher preta. Conheça mais sobre a autora desse texto: Instagram @sany_santanna

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