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O prazer e a dor de ser você mesma

Você tem a caneta, como quer contar a sua biografia?

Eu gosto de ser mulher. Gosto da minha força, da minha resiliência, da minha capacidade de lidar com as coisas fora e dentro de mim. Gosto do meu corpo, dos meus ciclos, do meu cabelo, do meu sorriso… Mas, nem sempre foi assim.

Ser mulher em uma sociedade como a nossa é crescer moldada em micro-agressões. É ter sua capacidade questionada física e intelectualmente o tempo inteiro, é também, em muitos momentos, ter a imagem do seu corpo, seja ele qual for, ditando as regras de onde você cabe na sociedade, do que você pode ou não pode, de onde você se encaixa melhor (pra quem?).

Ser mulher na nossa sociedade é ter forjado em nosso cérebro uma síndrome da impostora que, o tempo todo, nos coloca como insuficientes enquanto exige perfeição… Se não cuidarmos a narrativa da nossa trajetória, estamos fadadas a correr a vida inteira atrás do impossível.

Porém, não precisa ser assim.

Uma das mensagens midiáticas, propagandeadas fortemente tempos atrás, que eu considero uma das mais criminosas que existem é da ideia de que “somos todos iguais”. Não somos, não seremos nunca, e é aí que está a nossa força e beleza. Deveríamos ser tratados iguais em termos de direitos e igualdades, mas isso não acontece.

Porém nossas histórias, por mais difíceis que tenham sido, nos trouxeram até aqui. Cada esquina da nossa caminhada nos deu uma imensidão de experiências e aprendizados. Experiências de todos os tipos: Fomos feridas, machucamos pessoas, vivemos amores, confiamos em quem não merecia… Nós fomos violentadas em vários sentidos e toda essa história é parte de nós. Não estou dizendo com isso pra perdoar e abraçar seu algoz, mas, pra aceitar cada pedaço da sua história. Negar algum pedaço disso é negar uma parte de nós. E como se olhar no espelho e amar o que você, vê se não nos aceitamos inteirinhas?

Um exercício a ser feito?

Se coloque diante do espelho, sem maquiagem, se possível sem roupa, e olhe pra você. Olhe com atenção para cada parte de você. Olhe com respeito para cada centímetro do seu corpo, cada curva, cada pelo, cada ruga, cada cicatriz, cada história que as partes te contam. Você é única, aprecie a beleza disso. Não permita que uma história difícil de vida seja o tema central da sua biografia. A história é sua, a trajetória de vida é sua, escolha com carinho e respeito por si mesma o tom que ela vai ter, escolha o que fazer com ela, escolha a forma de contar.

Numa sociedade que busca descontroladamente se adequar a um padrão, ser seu próprio padrão e estar em paz com isso é libertador, porém, é um desafio. Ser você mesma e gostar disso, é ainda, estar fora de um padrão esperado. Não estar lutando para se encaixar em algum modelo é algo que ainda nos faz ser vistas como esquisitas, mas tudo bem. Cada espaço de liberdade que você conquista no mundo é seu, use-o sem moderação. Afinal, correr a vida inteira pra se tornar algo diferente do que você é de verdade seria um desperdício dessa maravilha que é você.

Teve uma trajetória difícil? Reconte a sua história pra si mesma quantas vezes forem necessárias até que ela pare de doer, até que você perceba que, as partes que você sentia culpa ou vergonha, não são nada além de partes, pedaços, fragmentos, tanto quanto as que você sentiu alegria ou amor. Respeite e dê a dimensão exata a cada pedacinho. Não enalteça as tragédias, nem desmereça as vitórias, dimensione, equalize, harmonize. Entregue todo amor, carinho e respeito do mundo para a mulher mais importante da sua vida: você!

– por Camila lima.

Camila, nasceu mulher e preta sem saber bem o que isso significava. É mãe de 3 meninas completamente diferentes e isso a fez mergulhar na diversidade desse Universo feminino. Sofreu várias violências na vida e enquanto se curava delas, acolhia também as dores de outras mulheres. Não por uma busca ou escolha, mas aceitou abraçar a causa feminina. Instagram: @camilalima.on

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