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Efeito colorismo

Privilégio ou apenas disfarce?

O conceito de colorismo diz para nós que quanto mais retinta for a pele, mais preconceito uma pessoa preta irá sofrer com os efeitos do racismo, e que, em contrapartida, quanto mais clara for a pele, mais privilégios ela terá. Dentro dessa lógica, os traços negróides também são características usadas para exclusão de pessoas pretas dos círculos sociais. Entendido isso, vamos conversar um pouco sobre como isso afeta nossas vidas diretamente.

A visibilidade para os assuntos raciais tem feito a gente retomar nosso autoconhecimento e o texto de hoje é um pouco sobre essa análise de identidade, de forma consciente.
Se você é uma mulher preta, como você tem se colocado e se sentido nesse mundo? Provavelmente, se você tem a pele clara, assim como eu, pode já ter ouvido relacionarem essa característica a um “privilégio”.

Vamos falar sobre pele e sobre como ela pode ser facilitadora ou não no nosso processo pessoal de vida?

Indiscutivelmente, sofremos racismos em escalas diferente, mas isso não pode te alienar de quem você é. Muitas vezes, quase que estrategicamente, retirar ou pôr em dúvida sua identidade como pessoa preta (ainda que de pele clara), se torna também, um meio de desarticular a sua movimentação e enfraquecer a sua própria leitura e a ideia de pertencimento a um certo grupo social.

Não é difícil que uma preta de pele clara seja interrogada da seguinte forma: “você é muito confundida como uma pessoa branca?”, ou melhor, “você se livra do racismo por isso?”. Esse é um questionamento recorrente e deve ser pensado. A minha resposta como mulher preta de pele clara é SIM e NÃO. Por que ser tolerada por essas características não significa ser aceita e não ser aceita ainda me coloca em uma posição vulnerável até mesmo psicologicamente, como comentei antes.

Já ouviu algum caso de pessoa preta, na maioria das vezes mulheres, que tiveram que alisar ou cortar os cabelos para conseguir ou se manter em um emprego? Vocês acham que depois de fazerem isso e se encaixarem em um padrão elas foram aceitas ou apenas toleradas?

Talvez, em um primeiro momento, ser uma pessoa de pele preta clara possa soar como privilégio, mas faça um outro experimento: entre numa sala cheia de pessoas brancas e ninguém lá terá duvidas de que você é preta (mesmo se você não for retinta). Talvez a dúvida sobre quem você é continue dentro de você, mas nunca pra quem está de fora.

Então estamos vendendo nosso entendimento de quem somos por querer viver privilégios?

A sociedade não está habituada a ver pessoas pretas bem sucedidas, por isso esse grupo social sofre estranhamento e a curiosidade ao compartilhar certos espaços.

Toda essa conversa me lembra de uma cena do filme “Green Book: o Guia (2018)”, que conta a história do artista Don Shirley (1927-2013), interpretado por Mahershala Ali. Em um momento, ele chegou ao ponto de perguntar ao amigo de viagem: “Então, se eu não sou preto o suficiente, não sou branco o suficiente, então me fala, Tony, o que eu sou?”
Para ele, ser um pianista bem sucedido inserido em um contexto branco e igualmente rico se tornou perturbador, ao passo que fora do palco ele se tornava apenas um preto maltratado pelo racismo.

Isso nos mostra (apenas) um pouco sobre estereótipos e sobre como estamos tentando nos encontrar em lugares em que nossas imagens e pele já vêem sobrecarregadas de preconceitos.

Isso não é privilégio. Privilégio é ser quem você é, onde quer que seja e não temer por isso.

Acostumem-se a ver pretas bem sucedidas ao invés de encara-lás com olhar desconfiado e preconceituoso, pois, independente do tom da pele, vamos continuar ocupando esses espaços.

Um aprendizado importante desde a infância é o autoconhecimento pra que, no futuro, adultos saibam se posicionar e identificar esse tipo de comportamento corrosivo que estamos acostumados a conviver, onde estamos fugindo de nós em busca de pertencimento e aprovação.

Não normalize nenhum racismo, muito menos o racismo velado que banaliza as questões sociais a ponto de não ser percebido e se passar por “privilégios”.

-por Sany Santana

Sany é arquiteta e trabalha no Tribunal Regional Federal. Mãe de primeira viagem, ao longo dos anos vem acumulando experiência em maternidade e vivência consciente como uma mulher preta. Conheça mais sobre a autora desse texto: Instagram @sany_santanna

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