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Gravidez na adolescência

Calando meninas e criando mães

No dia 25 de julho nós comemoramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, dia criado a partir de uma reunião composta por mulheres de 32 países diferentes. Há 28 anos atrás, esse debate acontecia para denunciar opressões e pensar em soluções na luta contra o racismo e o sexismo. Passado todo esse tempo, ainda vivemos o efeito desses problemas.

Na África Subssariana, na América latina e Caribe estão concentradas as maiores taxas de gravidez na adolescência NO MUNDO, segundo um relatório feito pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Falando em Brasil, estamos acima da média de gestação na adolescência, estipulada pela ONU. Quando digo adolescente, falo de jovens com idades entre 15 e 19 anos.

São vários os motivos que contribuem para isso, dentre eles, o fato de que durante muitos anos o sexo foi um tabu e faz pouco tempo que vem ganhando espaço para debate com naturalidade. Vemos muitas jovens mulheres se tornando mães de forma indesejada, por falta de informação e de cuidados. A problemática aumenta ainda mais, quando os pais desses adolescentes não aceitam abordar o assunto de forma apropriada com seus filhos dentro de casa. O resultado são jovens desorientados, tentando descobrir o que são seus corpos e com grande chance de ocasionar uma gestação ou doenças, pois a maior parte desses adolescentes não tem acesso a métodos contraceptivos ou qualquer tipo de proteção.

Aliás, as consequências não são apenas sociais, também existem as biológicas. Milhares de mulheres podem vir a óbito após passarem por uma gestação precoce de alto risco e sem devido acompanhamento.

Além desses problemas, em alguns países a prática do casamento infantil é visto com normalidade, o que pode ocasionar abortos espontâneos, morte dessas meninas e aumento dos números.

E se por um lado homens são incentivados a terem uma vida sexual ativa logo cedo, antes mesmo de terem responsabilidade para tal, as meninas são ensinadas a não se interessarem pelo assunto e são as maiores prejudicadas nesse processo. Cabe a nós, como pais, conversar abertamente com nossos filhos e entender que o futuro deles está em jogo e que nós somos as pessoas em quem esses jovens devem confiar. Diferente disso, a orientação pode vir de outra pessoa igualmente despreparada.

Aos jovens, digo que querer dialogar sobre sexo é totalmente normal e falar abertamente sobre isso com seus pais vai ajudar eles a entenderem a real necessidade da abordagem.

Os reflexos negativos da gravidez na adolescência normalmente atingem mais às mães. Problemas como; ansiedade por estar numa situação fora de controle; abandono pelo parceiro; evasão escolar e menos oportunidades de emprego são bem comuns. A grande realidade é que muitas empresas não contratam mães e isso é GRAVE. Afinal, mãe também tem boletos para pagar. E MUITOS!

Para muitas mulheres, a gravidez é uma virada de chave. O fim da vida sem muitas preocupações para um novo mundo cheio de responsabilidades que as obriga a amadurecerem muito cedo, suprimindo etapas da vida.

Conciliar vida de mãe sendo jovem e ao mesmo tempo construir um futuro, é difícil, mas não impossível. Para as jovens não mães, fica o alerta. Para as que estão dentro das estatísticas citadas, espero em um próximo texto conversar e mostrar as muitas possibilidades que você ainda tem de se reinventar em meio à maternidade.

Vamos educar nossas meninas para que elas possam optar ou não por serem mães. Vamos falar sobre sexo até que ele não seja mais um problema nas nossas vidas. Informação é a maior prevenção.

-por Sany Santana

Sany é arquiteta e trabalha no Tribunal Regional Federal. Mãe de primeira viagem, ao longo dos anos vem acumulando experiência em maternidade e vivência consciente como uma mulher preta. Conheça mais sobre a autora desse texto: Instagram @sany_santanna

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